Fim do Mundo, quer dizer, Fim de Ano taí!

Fim do Mundo Fim de Ano taí!


E eis que, depois do calor histérico de janeiro e fevereiro; das águas de março; dos chocolates de abril; do meu aniversário (ahouhahahaha) em maio, do frio, das canjicas e dos pula-fogueira-iaiás de junho e julho; de agosto, mês da minha filha, huhuh; dos feriados intermináveis de setembro, outubro e novembro… Chega o famigerado dezembro com força total! E chega com trilha sonora:

“JÁ É NATAL NA LEADER MAGAZINE…”

Dezembro é o mês mais arrebatador que tem. Ele já começa aloprando, filho da puta, queeeente de fritar ovo em placa de esgoto. Já começa com aquela sensação de que o mundo vai acabar – e não apenas o ano. E, de fato, é mais ou menos isso. Toda vez que saímos pra rua e tomamos aquele bafo quente na cara, temos a sensação que “de hoje não passa”.

Em dezembro a gente já começa de caneta e bloquinho em mãos. É o mês das listas.
Lista de Amigo Oculto: que hoje em dia é, na verdade, “Havaianas Ocultas”, ou “DVD Oculto”, ou “Trinta Reais Ocultos”. Me pego perguntando, às vezes, se não seria mais justo se nós todos colocássemos trinta pilas em um envelopinho e simplesmente trocássemos na confraternização. O grande barato não seria o presente – como já não é, tendo em vista que todo mundo já sabe o que vai ganhar -, e sim a cor do envelope. “Aaaaai, o meu é roxiiiiinho, do jeito que eu gosto! Brigada, Afonso!”
Lista de Presentes: “lembrancinhas” valendo uns 30 paus (sempre 30, o número da sorte de dezembro, parece), que, logicamente, encontramos no Saara ou na 25 de março por 8 reais, com muito custo, muita cara no sovaco de muito ambulante se matando nas lojas transbordando de gente suada – misericórdia, Senhor! É uma Via Crúcis. É a visão dos infernos. É absurdo. A gente compra uns 20 bagulhinhos ( porta-níqueis, agendinhas, canetas), uma porrada de tranqueira que, no final das contas, ninguém usa, todo mundo repassa pra frente e eu tenho a impressão que, de alguma forma, no final do ciclo de um ano, tudo volta pras mesmas prateleiras. É, tipo: eu ganho um porta níquel, agradeço com meu sorriso amarelo, digo que “amey!”, guardo e dou pra alguém cujo presente esqueci de comprar, essa pessoa faz o mesmo e, de alguma forma, um dos receptores deve ser o Afonso, dono da loja de muambas. Aí ele vende de novo. É a versão urbana do Ciclo sem Fim, do Rei Leão.

Lista de Presentes DOS FILHOS: essa é PIOR. Quando chega novembro, a gente já fica ligada nas propagandas que fazem os pequenos pararem de andar de bicicleta pela sala pra prestar atenção. O que não são poucas. Moon Sand, Little Mommy, Barbies mil, Parque aquático da Polly… É, eu só presto atenção em coisas de menina, pq a minha filha é menina, né… Hhaouahuah! Mas pra meninos tem a mesma quantidade de tranqueira. Enfim, é um efeito engraçado – pra não dizer filho de uma puta, pq devia ser limitado o numero de propagandas, e não uma lavagem cerebral que cria pequenos consumistas -, ver que, do nada, eles param de brincar por trinta segundos, vêem a propaganda e imediatamente gritam “MÃE, EU QUERO!” ou “MÃE, VC COMPRA?”. No resto do ano a gente tenta explicar pra eles que ninguém peida dinheiro, mas em novembro e dezembro a gente troca o discurso: “PEDE PRO PAPAI NOEL”. Na vã esperança que eles escolham uma única coisa. O que nunca fazem.

Minha filha entrou dezembro me pedindo umas duas mil e quatrocentas coisas e eu só faltei arrancar meus pentelhos de um por um pra escolher o que ela realmente queria. Como malandro é malandro e mané é mané, levei ela no Papai Noel e disse pra ele perguntar o que ela queria e me contar depois. Huhuhuhuh. Fica a dica. Ou então manda pedir pro Tio Afonso, já que ele tem uma loja de muamba.
Lista de Compras pra Ceia: essa é foda. Começa com a pergunta clássica – quem vem pra ceia? E aí a gente conta as pessoas:

Mãe 1

Pai 2

Mano Maurício 3 4 5

Prima Gorda 6 7 *

Prima Magra 7 e 1/5

Prima Fashion 8 e 1/5

Primo Gay 9

Primos crianças 10

Tio Afonso 11 *

Tio Carlão 12 13 *
E, como vocês podem ver, a lista acima tem 13 pessoas. E os asteriscos, que marcam os que bebem pra cacete. Daí, só quando a gente sabe quem vai vir, é que a lista de compras é feita.
Peru ou Galinhão (Chester)

Pernil

Tender

Fios de Ovos – No extra

Nozes nas Casas Pedro

Castanhas Portuguesas

Passas

Cerejas ao marrasquino

Abacaxi em calda

Pêssego em calda

Pão de rabanada

Figo em calda

Seis quilos de açucar

Milhares de latinhas de cerveja

Lentilha pro ano novo

Bacalhau

Panetones

Azeitonas pretas

E por aí vai. A compra de dezembro vem ENORME e caríssima. Infelizmente a gente esquece que existe um mês inteiro até lá, e a compra do mês em si fica meio capenga… Portanto, durante metade do mês, ao invés de comer pão com queijo no café da manhã, a gente acaba comendo… Panetone com margarina ou pêssegos em calda com creme de leite…

E, enfim, chega o dia 23. Eu já escrevi sobre isso aqui e é redundante, mas eu preciso mencionar: a ceia só existe pra deixar as mulheres MALUCAS. Só pra isso. Pq dia 24 de noite, a gente tá o pó da rabiola. Depois de dois dias na cozinha ininterruptamente, qualquer semelhança com Ingrid Betancourt saindo do cativeiro NÃO é merda coincidência.

Mas tudo bem!!! Tudo bem, porque pelo menos na sua cozinha não tá tocando Então é Natal, da Simone! Como tá em todas as lojas Americanas do Brasil a partir do dia 15 de dezembro!

E tudo bem também porque a mesma comida servirá para o dia 25 e 26, se vc tiver feito as contas certas… Hahahahaouhaouha! Dois dias de arroz a grega no microondas e salpicão de chester!

E depois a gente não sabe pq no ano-novo a gente SEMPRE tá redonda.

Oh, céus.

Cansei.

Bjofui!

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Pérola de Natal

Acabei de achar isso no meu e-mail. Era pra estar aqui, e deve estar em algum lugar deste blog, mas não achei já postado, então aí vai.

Foi meu cartão de natal por e-mail em 2007. Haouuoauhauoaua! E, acreditem, eu RE-recebi o MEU próprio texto, como se fosse assinadopor ARNALDO JABOR. Posso com isso?

Natal… Ah, o Natal! Época de paz, alegria… Época de ver gente que há muito tempo a gente não via!

Vem parente de tudo que é lado, ou vamos nós. Mala, cuia, papagaio… Das duas uma: ou fica a família inteira encalhada no aeroporto, sem previsão de vôo, ou nos engarrafamentos nas estradas, rezando pra todos os santos pra algum ambulante passar com um biscoito “GLOBO” e uma água mineral “Mil”, pra tentar saciar a fome das crianças berrando no banco de trás… Pelo menos até a próxima parada de beira de estrada, quando todo mundo ameaça fazer xixi nas calças e daí não tem pra onde correr.

Chegar na casa dos “parente” e tirar as tralhas do carro… Gelar a cerveja IMEDIATAMENTE, senão ninguém agüenta a gritaria das crianças, as observações da tia velha – “Nossa, mas como você engordou!” – , as celulites daquela prima que insiste em desfilar de shortinho e top, a despeito dos voluptuosos 120 quilos; e os assuntos – meu Deooooos, sempre os mesmoooos! – do primo PORRRRRE. Que, pra variar, já estava de porre quando você chegou. E só deve ficar sóbrio de novo depois do Carnaval.

Desce os sacos do Carrefour – era onde tinha o Chester mais barato! – da mala. A estrada tava tão quente que o termômetro no peito do bicho pulou. Tá lá, estufadão. O lado otimista se manifesta: “Que bom, menos tempo de forno”. Os fios de ovos viraram barras de gemas, porque derreteram e se solidificaram quinze vezes no caminho, naquele pára e anda, pára e anda. As Cocas tão PELANDO, em ponto de bala: se jogar um Mentos dentro, a explosão será vista de Marte. As nozes, os damascos, as castanhas portuguesas… Toda aquela fortuna, tudo meio cozido. Não dá pra evitar o pensamento terrível de que, com aquele dinheiro, dava pra passar o mês INTEIRO… e vai tudo embora, no máximo, até o reveillon. Pra isso inventaram o 13°. Pra isso e pro maldito amigo oculto, e suas vertentes: “CD oculto”, “Vale-Presente oculto”, “DVDoculto”…

O 13° foi mais da metade pra pagar as dívidas do cartão acumuladas durante o ano todo só para, logo depois, a gente ter que estourar o crédito de novo comprando quilos e quilos de pernil, peru, presunto, fios de ovos… e o bacalhau. Maldito peixe fedorento.

Na ânsia de gastar menos, a gente compra aquele mais meia-boca e se fode pra retirar, de dois quilos, uns 500 gramas de carne sem espinha e pele nojenta… Pra, desses 500 gramas, tirar uns 200 só de sal. Senão a tiazona hipertensa pode ter um ataque durante a ceia.

As mãos fedem até o carnaval.

Se passar um palito de dente embaixo da unha, sai o bolinho já frito, até.

Beleza. Mistura os 300 gramas restantes com batata, cebola e azeite e vamos nós. Passar pra próxima, porque véspera de Natal é o inferno pras mulheres da casa. É o dia INTEIRO presa na cozinha, suando que nem uma porca parindo cinco filhotinhos à luz do meio dia, cheirando a defumado, a ovo, a óleo, a bacalhau, a peru e vinho… Enquanto os homens estão bebendo, gritando com algum jogo de futebol na sala, ou vendo Domingo Legal e falando da bunda das assistentes do Gugu, ou jogando buraco, ou cantando “dingoubéu” pra lá de etilicamente, e as crianças se matando numa piscina Tony montada no quintal, entrando de tempos em tempos na cozinha pra roubar alguma coisa.

A próxima é a desgraçada da rabanada. Uma melequeira de pão molhado – quer coisa mais nojenta??? -, ovo, açúcar e canela na pia tooooda. E não adianta limpar, o cheiro de ovo não vai sair!!! Óleo pingando por tudo que é lado… Ai, ai. Depois ainda tem a farofa, a mousse de maracujá, os pavês da vida, aquele presunto bolinha – que sempre acaba com os cravos da índia queimados, nas tentativas de imitar as propagandas -, o salpicão…Quando dá umas 9 da noite, com tudo quase pronto, percebemos que esquecemos o arroz. Típico.

Arroz prontinho, saímos nós, fêmeas, que nem pinto no lixo, da cozinha… ACABADAS… Nem as chinesas da espelunca de pastel no centro da cidade saem tão acabadas no fim do expediente, affff.

Saímos, ingênuas, pobrezinhas; crentes que poderemos tomar nosso merecido banho.

Que nada, meus amores.

Se a água não tiver faltado, tem uma fila de uns oito na frente.

Quando chega a sua vez, tem um baita pentelhão no SEU sabonete. Sabe Deus como eles conseguiram achar o SEU sabonete na SUA necessaire. Mas acharam.

O chão do box, podre. Areia, cabelos de mil etnias… Calcinhas das mais diversas, dos mais diversos tamanhos, penduradas pelo banheiro todo, que nem bandeirinhas de São João. Cuecas e biquinis também, claro.

Pentear os cabelos? Isso não te pertence mais!!! A escova tem uma massaroca tão grande de todos os fios da parentada que nem desliza.

E a pasta de dentes agora é uma linda utopia.

Se você der MUITO azar, a sua toalha vai estar podre de molhada…

Sai do banheiro JÁ SUANDO… E TENTA fazer uma escova pra domar a juba, né.

O dono da casa grita, entre as vozes dos atores da novela das 9, pra você desligar o secador senão a luz vai cair.

E você sai do quarto com metade da cabeça alisada e a outra mais cacheada que nunca.

Dependendo do grau de intimidade, recorre aos vizinhos pra uns minutinhos de secador, pelo menos pra secar a franja. Se não der, improvisa um rabão de cavalo e emplastra com gel e laquê de qualquer jeito, que a essas alturas não faz diferença, mesmo.

Às 11 da noite, tá todo mundo arrumado como se fosse pra um casamento.

Estranhamente, vai ficar todo mundo dentro de casa. HOAHUAHOUAUA.

As tias peruas pensam que tão abafando com o saltão prateado pra desfilar no corredor e os quilos e quilos de maquiagem na cara, em plenos quatrocentos graus do verão brasileiro.

A prima hippie já manchou o saião branco com vinho, sem querer.

O tiozão bêbado já tá um gambá caindo pelos cantos, jurando que ama todo mundo.

Os avós se emocionam, a família tá grande.

As crianças já tão caindo pelas beiradas de sono, mas resistem, em nome dos presentes.

Os primos de terceiro grau adolescentes que nem se conheciam tão lá, no quartinho de empregada, se pegando de jeito e mandando torpedos pros amigos, pra avisar da aventura sinistra…

…Enquanto você é o único que percebe que aquela tia-avó meio desparafusada dá arrotos homéricos a cada gole de refrigerante e umas levantadinhas de lado meio assim, “pufffff”, pra liberar uns gases…

Perto da meia-noite, todo mundo se prepara pra ceia.

Um Cd da Simone no som.

“Então é Nataaaaaaaaal… A festa cristãaaaaaaaaaaaaa…”

O espírito natalino vai chegando, meio que nem pomba-gira, mas vem que vem.

A tia gorda já nem parece tão gorda assim. Ou parece, mas você realmente quer acreditar, naquele momento, que o vestido branco é que a desfavorece.

As peruas, da maneira delas, tentam ser simpáticas, e elogiam qualquer coisa que você estiver vestindo, só pra ser simática.

O tiozão bêbado começa a recitar poemas e contar causos, vestido de papai Noel.

Na hora de cantar o amigo oculto, todo mundo é “uma pessoa linda, maravilhosa, por dentro e por fora”. Ô espíritozinho natalino porreta, sô!

Todos felizes, comem, rezam, se divertem… Tomam as zilhares de Cidras Cereser do freezer… E passam, enfim, uma noite agradável.

No dia seguinte, geral vai estar com diarréia, azia, gastrointerite… Ressaca… Mas aí já são outros quinhentos.

O importante é que, na noite de Natal, mesmo sem que ninguém – ou quase ninguém – lembrasse, demos ao aniversariante o presente que ele mais queria: passamos uma noite agradável, felizes, em paz. Do jeito que Jesus deve ter imaginado láaaa nos antigamentes, quando Ele decidiu que nós merecíamos continuar por aqui. =]

Feliz Natal pra todos!

Carol Kalil”