Pérola de Natal

Acabei de achar isso no meu e-mail. Era pra estar aqui, e deve estar em algum lugar deste blog, mas não achei já postado, então aí vai.

Foi meu cartão de natal por e-mail em 2007. Haouuoauhauoaua! E, acreditem, eu RE-recebi o MEU próprio texto, como se fosse assinadopor ARNALDO JABOR. Posso com isso?

Natal… Ah, o Natal! Época de paz, alegria… Época de ver gente que há muito tempo a gente não via!

Vem parente de tudo que é lado, ou vamos nós. Mala, cuia, papagaio… Das duas uma: ou fica a família inteira encalhada no aeroporto, sem previsão de vôo, ou nos engarrafamentos nas estradas, rezando pra todos os santos pra algum ambulante passar com um biscoito “GLOBO” e uma água mineral “Mil”, pra tentar saciar a fome das crianças berrando no banco de trás… Pelo menos até a próxima parada de beira de estrada, quando todo mundo ameaça fazer xixi nas calças e daí não tem pra onde correr.

Chegar na casa dos “parente” e tirar as tralhas do carro… Gelar a cerveja IMEDIATAMENTE, senão ninguém agüenta a gritaria das crianças, as observações da tia velha – “Nossa, mas como você engordou!” – , as celulites daquela prima que insiste em desfilar de shortinho e top, a despeito dos voluptuosos 120 quilos; e os assuntos – meu Deooooos, sempre os mesmoooos! – do primo PORRRRRE. Que, pra variar, já estava de porre quando você chegou. E só deve ficar sóbrio de novo depois do Carnaval.

Desce os sacos do Carrefour – era onde tinha o Chester mais barato! – da mala. A estrada tava tão quente que o termômetro no peito do bicho pulou. Tá lá, estufadão. O lado otimista se manifesta: “Que bom, menos tempo de forno”. Os fios de ovos viraram barras de gemas, porque derreteram e se solidificaram quinze vezes no caminho, naquele pára e anda, pára e anda. As Cocas tão PELANDO, em ponto de bala: se jogar um Mentos dentro, a explosão será vista de Marte. As nozes, os damascos, as castanhas portuguesas… Toda aquela fortuna, tudo meio cozido. Não dá pra evitar o pensamento terrível de que, com aquele dinheiro, dava pra passar o mês INTEIRO… e vai tudo embora, no máximo, até o reveillon. Pra isso inventaram o 13°. Pra isso e pro maldito amigo oculto, e suas vertentes: “CD oculto”, “Vale-Presente oculto”, “DVDoculto”…

O 13° foi mais da metade pra pagar as dívidas do cartão acumuladas durante o ano todo só para, logo depois, a gente ter que estourar o crédito de novo comprando quilos e quilos de pernil, peru, presunto, fios de ovos… e o bacalhau. Maldito peixe fedorento.

Na ânsia de gastar menos, a gente compra aquele mais meia-boca e se fode pra retirar, de dois quilos, uns 500 gramas de carne sem espinha e pele nojenta… Pra, desses 500 gramas, tirar uns 200 só de sal. Senão a tiazona hipertensa pode ter um ataque durante a ceia.

As mãos fedem até o carnaval.

Se passar um palito de dente embaixo da unha, sai o bolinho já frito, até.

Beleza. Mistura os 300 gramas restantes com batata, cebola e azeite e vamos nós. Passar pra próxima, porque véspera de Natal é o inferno pras mulheres da casa. É o dia INTEIRO presa na cozinha, suando que nem uma porca parindo cinco filhotinhos à luz do meio dia, cheirando a defumado, a ovo, a óleo, a bacalhau, a peru e vinho… Enquanto os homens estão bebendo, gritando com algum jogo de futebol na sala, ou vendo Domingo Legal e falando da bunda das assistentes do Gugu, ou jogando buraco, ou cantando “dingoubéu” pra lá de etilicamente, e as crianças se matando numa piscina Tony montada no quintal, entrando de tempos em tempos na cozinha pra roubar alguma coisa.

A próxima é a desgraçada da rabanada. Uma melequeira de pão molhado – quer coisa mais nojenta??? -, ovo, açúcar e canela na pia tooooda. E não adianta limpar, o cheiro de ovo não vai sair!!! Óleo pingando por tudo que é lado… Ai, ai. Depois ainda tem a farofa, a mousse de maracujá, os pavês da vida, aquele presunto bolinha – que sempre acaba com os cravos da índia queimados, nas tentativas de imitar as propagandas -, o salpicão…Quando dá umas 9 da noite, com tudo quase pronto, percebemos que esquecemos o arroz. Típico.

Arroz prontinho, saímos nós, fêmeas, que nem pinto no lixo, da cozinha… ACABADAS… Nem as chinesas da espelunca de pastel no centro da cidade saem tão acabadas no fim do expediente, affff.

Saímos, ingênuas, pobrezinhas; crentes que poderemos tomar nosso merecido banho.

Que nada, meus amores.

Se a água não tiver faltado, tem uma fila de uns oito na frente.

Quando chega a sua vez, tem um baita pentelhão no SEU sabonete. Sabe Deus como eles conseguiram achar o SEU sabonete na SUA necessaire. Mas acharam.

O chão do box, podre. Areia, cabelos de mil etnias… Calcinhas das mais diversas, dos mais diversos tamanhos, penduradas pelo banheiro todo, que nem bandeirinhas de São João. Cuecas e biquinis também, claro.

Pentear os cabelos? Isso não te pertence mais!!! A escova tem uma massaroca tão grande de todos os fios da parentada que nem desliza.

E a pasta de dentes agora é uma linda utopia.

Se você der MUITO azar, a sua toalha vai estar podre de molhada…

Sai do banheiro JÁ SUANDO… E TENTA fazer uma escova pra domar a juba, né.

O dono da casa grita, entre as vozes dos atores da novela das 9, pra você desligar o secador senão a luz vai cair.

E você sai do quarto com metade da cabeça alisada e a outra mais cacheada que nunca.

Dependendo do grau de intimidade, recorre aos vizinhos pra uns minutinhos de secador, pelo menos pra secar a franja. Se não der, improvisa um rabão de cavalo e emplastra com gel e laquê de qualquer jeito, que a essas alturas não faz diferença, mesmo.

Às 11 da noite, tá todo mundo arrumado como se fosse pra um casamento.

Estranhamente, vai ficar todo mundo dentro de casa. HOAHUAHOUAUA.

As tias peruas pensam que tão abafando com o saltão prateado pra desfilar no corredor e os quilos e quilos de maquiagem na cara, em plenos quatrocentos graus do verão brasileiro.

A prima hippie já manchou o saião branco com vinho, sem querer.

O tiozão bêbado já tá um gambá caindo pelos cantos, jurando que ama todo mundo.

Os avós se emocionam, a família tá grande.

As crianças já tão caindo pelas beiradas de sono, mas resistem, em nome dos presentes.

Os primos de terceiro grau adolescentes que nem se conheciam tão lá, no quartinho de empregada, se pegando de jeito e mandando torpedos pros amigos, pra avisar da aventura sinistra…

…Enquanto você é o único que percebe que aquela tia-avó meio desparafusada dá arrotos homéricos a cada gole de refrigerante e umas levantadinhas de lado meio assim, “pufffff”, pra liberar uns gases…

Perto da meia-noite, todo mundo se prepara pra ceia.

Um Cd da Simone no som.

“Então é Nataaaaaaaaal… A festa cristãaaaaaaaaaaaaa…”

O espírito natalino vai chegando, meio que nem pomba-gira, mas vem que vem.

A tia gorda já nem parece tão gorda assim. Ou parece, mas você realmente quer acreditar, naquele momento, que o vestido branco é que a desfavorece.

As peruas, da maneira delas, tentam ser simpáticas, e elogiam qualquer coisa que você estiver vestindo, só pra ser simática.

O tiozão bêbado começa a recitar poemas e contar causos, vestido de papai Noel.

Na hora de cantar o amigo oculto, todo mundo é “uma pessoa linda, maravilhosa, por dentro e por fora”. Ô espíritozinho natalino porreta, sô!

Todos felizes, comem, rezam, se divertem… Tomam as zilhares de Cidras Cereser do freezer… E passam, enfim, uma noite agradável.

No dia seguinte, geral vai estar com diarréia, azia, gastrointerite… Ressaca… Mas aí já são outros quinhentos.

O importante é que, na noite de Natal, mesmo sem que ninguém – ou quase ninguém – lembrasse, demos ao aniversariante o presente que ele mais queria: passamos uma noite agradável, felizes, em paz. Do jeito que Jesus deve ter imaginado láaaa nos antigamentes, quando Ele decidiu que nós merecíamos continuar por aqui. =]

Feliz Natal pra todos!

Carol Kalil”

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