Eu Vi Uma Folhinha na Careca do Vovô

Hoje acordei saudosa.

Há algum tempo (na época que eu escrevi esta história esse tempo era presente, mas várias formatações do meu HD e do site onde eu postava minhas merdas me fizeram perder um acervo enorme. Reescrevendo, o tempo vira um pretérito pra lá de saudoso!), eu estagiava no centro do Rio, em um jornal que já teve seus tempos áureos. Morando em Niterói, saía daqui às 7 da matina, passava em uma birosca perto do ponto e comprava um italiano* e uma latinha de refrigerante ou chá gelado – dependia do jantar de “ontem” -, e subia no ônibus com o salgado ainda fresquinho. Sentava naqueles bancões altos, os últimos antes do trocador, abria o pacotinho e saboreava aquele salgado maravilhoso, iguaria pé-sujo sem igual. Depois, bebericava o líquido da latinha atéeeee… Até acabar.

Enquanto o ônibus estava vazio, ia bem no meião do banco. À medida em que enchia, ia bundeando pro lado do corredor (devido ao tamanho da circunferência das minhas ANCAS, odeio ficar presa na janela dos ônibus, aviões e afins: a sensação de esfregar o fiofó na cara do pobre coitado vizinho é deprimente demais).

Invariavelmente, o ônibus enchia demais, assim como as ruas, e eu demorava aproximadamente duas horas pra chegar ao jornal. Não vou dizer que isso não poderia ser evitado, poderia sim, era só eu ir de barca: em menos de uma hora, já estaria lá.

Só que eu adoraaava ir de ônibus! Aquele ritual de comprar italiano e latinha e depois aquela sonolência, aquele solzinho da manhã e o ventinho gelado no rosto me embebedavam e eu ia, durante todo o caminho, pensando na vida, meio dormindo, meio acordada…

No primeiro trecho – quando tinha engarrafamento demais e o ônibus não podia deslizar tranquilo pra amortecer meus sentidos -, até a ponte, eu ia pensando. No segundo, da ponte em diante, eu era embalada pela velocidade e o vento e dormia meus 40 minutos mais preciosos de cada dia.

Nesse dia não ia ser diferente. Estava ainda no primeiro trecho. Pensava, pra ser exata, no motivo que levava os fabricantes de absorventes a ainda fabricarem absorventes sem abas, já que nem uma indivídua que conheço os compra. Elaborei mil hipóteses, pesquisei mentalmente os preços, lembrei de algumas coisas que precisava comprar. Iria seguir minha amada salve-salve rotina diária, em poucos minutos o vagar dos pensamentos me fariam dormir.

Masssss, na Alameda (um trecho que sempre engarrafa e sempre entram milhares de pessoas nos ônibus), entrou uma porrada de gente. Entre essas gentes, um senhor careca. Careca daqueles que o cocoruto reluz, e só tem um bambolêzim de cabelos circundando o topo da nuca e acima das orelhas, tal e qual aquela coroinha de folhas que os gregos (eram os gregos?) usavam.

Eu nem teria reparado nesses detalhes todos, mas ele se sentou bem na minha frente. E, como sabemos, nossos olhos são scanners, capturam e analisam toda e qualquer imagem. Se estiver tudo certo, eles liberam o movimento pra onde você quiser olhar, mas, se NÃO estiver tudo certo, fodeu, os dois bichinhos se trancam na direção do erro e, puta merda, nem toda a educação do mundo consegue destravá-los! Tenta tirar os olhos de uma pessoa de peruca, ou com a calça furada, ou com batom no dente, ou com mó remelão e vê se consegue!

Então, meus olhos estavam prestes a liberar o careca do processo, chegaram até a dar uma destravadinha e olhar pro outro lado, mas voltaram. Identificaram algo.

No meio daquela careca lisiiiinha e mais brilhante que uma bola de boliche, aquele aeroporto de mosquito perfeito, assim, como quem não quer nada… Jazia uma folhinha. Uma folhinha. Tá pra existir coisa mais inocente do que uma folhinha daquele tamanho. Pequenina e verde. Bem verde. Bem pequenina.

Bom, certamente alguns vão pensar:”Tá, mas e daí?”

E eu vou responder: experimente VOCÊ ficar confinado num ônibus por mais de uma hora na frente de um careca com uma folha no meio da cabeça.

Te digo de antemão: maluco, NÃO DÁ. O cérebro fica em constante desequilíbrio, processando o tempo todo que algo está errado. Vira uma TORTURAAAAAAA.

A folhinha adqüire rapidamente voz de desenho animado. Formiga Atômica total. E berra: “NANANÁAAANAAA, VOCÊ NÃO ME PEGAAAAA!”, e te tortura, e te tortura, e que tortura. Não acaba nunca.

Pronto. Minha rotininha alterada. Cacete. Não consegui pensar mais, com aquela folhinha desgraçada me testando. Não consegui dormir, coma aquela folhinha me gritando. Pra falar a verdade, meus olhos não saíram da folhinha nem um segundo.

E o careca passava a mão pra lá, passava a mão pra cá, tipo “penteando os cabelos”, em TOOOODOS os lugares da careca, menos na folhinha. E a cada vez eu gritava por dentro:”MAIS PRA DIREEEEEEEEEEITA!!!! MAIS PRA DIREEEEEEEEEEEITA!!! A FOLHINHA TÁ MAIS PRA DIREEEEEEEITA!!!”

Ele, é claro, não ouvia.

Quando chegamos ao centro do Rio, eu já tava suando frio de nervoso. Minhas mãos tremiam, minha boca seca, a latinha amassada como se fosse um copo descartável. Minha perna balançava sozinha e acho que o ônibus inteiro percebia que eu tava morrendo ali. A maldita folha sobreviveu a TODOS os ventos, a TODAS as “penteadas de cabelo”, a TODOS os sovacos e barrigas de gente em pé roçando na cabeça do careca. A TODAS as minhas preces e gritos de desespero, a TODOS os meus olhares telepáticos; eu REALMENTE tentei fazer aquela porra de folha flutuar.

Na Leopoldina eu me liguei que já tava chegando perto do meu ponto, que eu precisava relaxar, “só mais cinco minutinhos”.

Quando cheguei no retão que precedia o meu ponto de descida, fui acometida de um alívio quase físico, a felicidade de imaginar que eu ia descer e nunca mais ia olhar aquela folha dos infernos na minha frente. Levantei, meio bamba de emoção, e fiquei lá, em pé, um braço pra cima segurando na barra, encostada na “paredinha” na frente do trocador, esperando o ônibus parar, ao lado da minha poltrona.

Qual não foi a minha surpresa quando o careca levantou também.

Com quinhentos milhões de pontos de ônibus, o homem foi descer ali. Tinha que levantar ali. Tinha que ter alguma coisa pra fazer ali perto. CARALHOOOOOOOO, merda pouca é bobagem. O careca estava ali, de pé na MINHA FRENTE. Uma respiração mais forte minha e eu embaçava o carecão.

Juro que nunca me concentrei tanto em toda a minha vida. Aqueles poucos momentos conseguiram a proeza de serem piores do que toooooda a viagem desde Nikiti. Estava ali, a menos de um metro de mim, aquela folha de uma figa.

Respirei fundo quando o ônibus foi parando, fechei os olhos e pretendia contar até dez pra, quando fosse abrir os olhos de novo, não ver aquela careca com aquela folha quenga ali. Mas logo abri, né, porque iriam me linchar se eu ficasse mais um segundo parada, tinha gente presa lá atrás.

No momento em que abri os olhos de novo, aconteceu.

Do nada, eu juro que foi do nada, involuntariamente, minha mão levantou e deu mó tapão na careca do velhinho. O_O . Eu tenho certeza que a intenção era só tirar a folha, mas foi um tapa tão forte que fez “PAF”. O velhinho, no mínimo assustado, levantou os ombros e afundou a cabeça no pescoço, sabem? Levou a mão à cabeça e foi virando devagarzinho… Até olhar pra mim.

Agora vocês vejam bem. Eu, uma jovem de 1m71 dei um pescoção de fazer dó num velhinho com um terço do meu tamanho e peso, na frente de TODO MUNDO. Num momento desses, o que que você faz? Nega????

Pensando na velocidade de um raio, cheguei a conclusão de que eu podia fazer duas coisas. Ou eu dava um passinho pro lado, fazia cara de desentendida e apontava pra mulher sentada na cadeirfa mais próxima dizendo: “Foi ela, foi ela!”… Ou eu fazia o que eu fiz.

Na hora em que o velhinho parou os olhos em mim, a cara A-P-A-V-O-R-A-D-A, uma expressão de medo, confusão e raiva, tudo junto, eu, muito calmamente, como se nada tivesse acontecido, com a cara mais séria e plácida do mundo, sem tirar o outro braço da barra de ferro, disse:

“- Tinha uma folha na sua careca.”

E, diante da falta total de expressão no rosto do velho (e me borrando de medo de alguém me bater), emendei:

“- Com licença.”

Passei, desci e fui embora.

Fala sério, o que você faria no meu lugar???

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3 Comentários (+adicionar seu?)

  1. Dannielle Andreola
    ago 25, 2009 @ 13:39:31

    Aêeeee Carolzitaaaa! Nossa quanto tempo, te acompanhava na época do Filosofando na Potato e derrepentemente rsrsrsrs vc sumiu, nossa fiquei muito triste e desde então venho sempre te procuranso, encontrei um blog no overmundo, mas faz tempo q vc não atualizava eu imaginei que tivesse criado outro, até q encontrei \O/\O/ rsrsr muito show essa história da careca do velho e outra, criei um blog também, v se visita e comenta tá por favor!

    Responder

  2. carolinakn
    ago 25, 2009 @ 13:59:23

    =]

    Bemvindaaaaaaaaaaaaa!

    Ontem mesmo eu tava querendo ir lá no filosofando e escrever pra cada uma das que postavam lá… mas acabou que não o fiz!

    Obrigada por vir!

    Volte sempre sempre!

    Eu vou visitar o seu!

    Bjos

    Responder

  3. ¬!z
    ago 25, 2009 @ 14:38:41

    “levantou os ombros e afundou a cabeça no pescoço” … senti como se fosse a minha cabeça! hahahhaaahahahahahahha
    Suas histórias são sempre hilarias e de tão reais parece que sou uma testemunha ocular do que aconteceu!!!
    Seguindo sempre …
    =*

    Responder

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