ACHEI.CA

Gente, como a Ana percebeu, o texto abaixo foi escrito pra outro lugar… =]

É que agora sou colunista do Achei.ca , um jornal para brasileiros que estão no Canadá atualmente. =]

Tem textos especiais pra lá, e primeiro ponho lá pra depois postar aqui.

Desculpem minha ausência, final de gravidez é uma correriiiiaaaaaa…

=***

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Todo mundo tenta, mas só o Brasil é Penta. E vai ser Hexa!!!

Eu nunca estive no Canadá. Nunca. Não tenho idéia de como seja aí, mas desconfio que seja mais frio, em todos os sentidos, do que aqui. Sim, pois, ora bolas, eu estou no Rio de Janeiro em plena Copa do Mundo! E nada pode ser tão caloroso como o Rio em festa.
Então resolvi deixar você, querido brasileiro, que está, por qualquer motivo, no Canadá, com um pouco mais de saudades daqui.

Já tenho muitas Copas no currículo, mas somente nesta eu vim perceber a riqueza que este momento proporciona para qualquer um que esteja em território brasileiro. E o motivo é muito simples: casei-me com um chileno. O Chile nunca ganhou uma Copa do Mundo. E meu marido nunca havia presenciado a festa em que o Brasil se transforma para uma Copa.

Pra começo de conversa, há uns meses atrás ele começou a perguntar o motivo de todas as propagandas – desses folhetos que vêm dentro do jornal, Casa & Vídeo, Ponto Frio e tal – de eletroeletrônicos virem com imagens de futebol, torcida ou jogadores, em verde e amarelo. Como brasileira, nem havia me dado conta. Mas fui ver do que ele estava falando. Simples: em todas as fotos de televisores de tela plana, por exemplo, a imagem que aparecia na tela era da torcida brasileira. Gente de peruca “verde-amarela”, de chapéu, cornetas, pessoas pintadas… E daí lembrei a ele que é ano de Copa, e ele estava vendo só o começo.

Lançaram Bubbaloo do Ronaldinho Gaúcho. É o Bubbaloo da Copa, verde e amarelo. Lançaram Tic-Tac “Hexa”. Uns verdes, uns amarelos. É o Tic-Tac da Copa. Na televisão, ensinam receitas verde-amarelas: lasanha de espinafre com ovo cozido – de gosto duvidoso, mas verde-amarela; pipocas condimentadas com coisas amarelas e verdes, macarrões com pedacinhos de pimentão amarelo e brócolis… A Coca-Cola lançou uma garrafa em forma de bola pra Copa. Mas aqui, além dessa garrafa, tem garrafas de 600ml em verde e amarelo, especiais para o Brasil. Aliás, todas as tampas de todos os refrigerantes da Coca-Cola são verde-amarelas, agora.

As lojas de departamento têm linhas inteiras de lingerie temática. Todos os uniformes de todos os funcionários de qualquer estabelecimento de médio a grande porte ganharam uma versão temática. Tá todo mundo de verde e amarelo. Na Páscoa teve ovo verde-amarelo. Pelo menos por fora.
Há um mês atrás, o mais fantástico começou a acontecer: famílias inteiras, pai, mãe, filhos pequenos, médios, grandes, de camisetas da seleção. Ou nem tanto da seleção, afinal, a oficial está custando em média R$ 170, mas há genéricas por todos os lados. Nas praias, cangas estampadas de bandeira do Brasil. Sapatos verde-amarelos, óculos de sol, bolsas… Ônibus começaram a fazer suas pinturas comemorativas.

Há uns 15 dias, as ruas começaram a ganhar cara nova. Bandeirinhas verde-amarelas cruzam de um poste a outro, por toda a extensão das avenidas. Colégios estão decorados com bandeiras, bandeirinhas e bolas de encher. Prédios começaram a se preparar, decorando suas portarias, fazendo homenagens. Não há um carro sem bandeirinhas do Brasil ou adesivos do “hexa”. Os jornais têm caderno especial da Copa. Na praia, os POODLES estão de roupinhas do Brasil. É inacreditável.

Os bares e restaurantes comparam telões para exibir as partidas e, vocês bem sabem, vamos todos nós tomar nossa Skol vendo jogos e comendo batatas-fritas nos mais variados botecos; e vamos todos gritar gol, e vamos todos chorar juntos – Deus nos livre – no caso de alguma derrota. Sairemos com nossos amigos em grupo, pintados e vestidos a caráter, e faremos amizades com outros grupos totalmente desconhecidos, talvez alguém de uma mesa grite que o Parreira devia fazer isso ou aquilo, e um outro da mesa ao lado concorde, pronto, as mesas serão juntas. E a próxima partida será vista pelo mesmo grupo, agora dobrado, ali, naquelas exatas duas mesas.

Hoje, no shopping, já estava avisado: “PARA A COPA: OS CINEMAS NÃO FUNCIONARÃO, AS LOJAS FECHARÃO 30 MINUTOS ANTES DOS JOGOS E REABRIRÃO 15 MINUTOS DEPOIS E OS RESTAURANTES TÊM PROMOÇÕES ESPECIAIS DURANTE A EXIBIÇÃO DOS JOGOS”. A praça de alimentação estava apinhada de gente para a estréia, exibida num telão. Sorrisos, gritos, crianças, adultos e velhos… E olha que nem era o Brasil jogando, ainda!

E, bem, como eu disse, nunca estive no Canadá. Não sei como as coisas estão aí. Mas nos noticiários daqui aparecem casas, prédios, carros e pessoas, do Irã à Coréia do Sul, decoradas com motivos brasileiros. E isso só prova uma coisa: território é algo que vai muito além de espaço físico. É sentimento. É pertencimento. Há um pedacinho do Brasil em cada lugar desses; onde há um brasileiro no mundo há festa, há território brasileiro.

Vocês, brasileiros que estão no Canadá agora, devem ter imaginado suas ruas aqui, sua vizinhança. Tudo o que eu mencionei, todos os produtos comemorativos, vocês devem ter imaginado. E, não neguem, bate uma saudadezinha, não?

O mais interessante foi quando meu marido me perguntou se parávamos de trabalhar para os jogos. Ele perguntou isso porque, na empresa onde ele começou a trabalhar, os funcionários trabalham 40 minutos diários a mais desde janeiro, para compensar as horas de folga durante os jogos da Copa. E eu respondi que era lógico que ninguém trabalhava durante os jogos. E que eu achava, inclusive, que ninguém nascia e ninguém morria, pelo menos durante aqueles 45 minutos.

Aí ele fez as contas. Chegou à conclusão de que, trabalhando os 40 minutos a mais, TODOS os jogos, até a FINAL, estariam compensados. E, de alguma forma – que absurdo! -, achou de uma arrogância imensa estarem trabalhando até a FINAL, quando na verdade não é nada garantido. Eu, obviamente, mandei catar coquinhos que o hexa é nosso e ninguém tasca.

Mas veio a pergunta mais inesperada. “E se o Brasil perder?”. Sim, isso não é pergunta que se faça a uma brasileira, fiquei até nervosa. Mas tive que confessar: “Aí, Pablo… Você vai ver o que é um país inteiro em depressão”. E, pela cara de horror que eu fiz, ele deve ter imaginado pessoas se jogando de prédios, bandidos saindo às ruas, bandeiras queimadas em praça pública… “Mas, Carol, é só futebol!”, disse o coitado, PENSANDO que ia me consolar. Pobre dele. Uma IRA tremenda me possuiu. “Cala a boca, Pablo Andrés. O Brasil NÃO VAI perder. Você não entende porque você não é brasileiro”.

E tenho dito.