O Dia do Pássaro


HOAHAUHUOAHUOAHOUAHAHOUAHOUAHOUAH… Eu tinha até esquecido desse texto…

Foi sábado. Começou quando meu pai me chamou lá do quarto dele.

“- Táta, vem cá!”

Táta sou eu, e eu fui. Chegando lá, meu pai com a janela aberta, parado bem na frente.

” – Me diz o que é isso aí”, disse ele, indicando assim, com a cabeça, pra eu olhar o lado de fora, onde tem um treco desses de botar planta, sabe? Só que sem planta, ali não tem nada, só uma terra muito seca e umas palhas que um dia foram plantas. Um dia muito antes da gente se mudar pra cá.

Como meu pai não leva muito a sério o meu pânico de mariposas, desconfiei que podia ser uma.

“- É mariposa?”
“- Não”
“- Tem certeza, pai?”
“- Tenho”
“- Não é mariposa, né?”
“- Não”
“- Tem asa?”

Eu me referia a algum inseto com asas, tipo libélula… Eu não sou mto chegada a asas… Bem, mas a resposta dele foi olhar pra cima, à direita, pensativo… Pensando se o tipo de asa que o bicho tinha contava como as asas a que ele sabia que eu tava me referindo.

“- Minha filha, só olha aí e me diz o que é!” – disse, perdendo a paciência.

Eu olhei. Bem no cantinho do canteiro, tava esse bichim aê. Parado como uma múmia. A este momento seguiram-se exatos 15 minutos em que meu pai e eu ficamos imóveis, os dois com as cabeças pendentes pra fora da janela, encarando o bicho.

A grande dúvida era se estava vivo, pq não se mexia.

” – Pai, acho que tá morto”
” – Não, minha filha, isso é uma fêmea chocando… Acho que não tá morta não”
” – Pai, o bicho não se mexe”

Meu pai desenvolveu uma teoria que diz que as fêmeas, quando estão chocando, ficam em “estado de letargia, sem se mexer, FINGINDO que estão mortas”. Os olhos do bicho tavam abertos e ela num piscava, um nervoso incontrolável começou a tomar conta de mim.

” – Pai, este bicho está morto”

Gritei AAAAAAHHHH perto, não se mexeu.

“- É… Acho que tá morta mesmo”

Aí saímos os dois de perto da janela. Eu vim pro meu quarto. Meu pai, de 15 em 15 minutos, passava da sala pro quarto dele, afim de verificar o bicho. E, de 15 em 15 minutos, eu perguntava “PAI, SE MEXEU???”. E, de 15 em 15 minutos, sistematicamente, a resposta era a mesma: ” APARENTEMENTE, não”. Houhauohaouhaouhaouah.

Detalhe, quem não conhece pode suspeitar que ele é veterinário, mas meu pai é um mero engenheiro.

Lá pelas tantas, quando já tava escuro, fui conversar com o bicho. Gritar um pouco nos ouvidos invisíveis dele pra ver se se mexia.

“- Pássaro burro, se vc estiver vivo, se mexe. Pq senão eu vou ter que chamar o zelador pra te tirar daí, ou vc vai entrar em decomposição na janela do quarto do meu pai e não vai ser nada legal ter urubus aqui. Se mexe. Se mexe. SE MEXE!!!”

Nada, nem uma respiração. Mas tb eu não sei como pássaro respira.

Aí eu fui na cozinha, peguei meio copo de água, voltei pra janela – pro outro lado da janela, ou seja, o mais distante do bicho, claro, pra ele não me atacar caso estivesse vivo – e joguei.

” – Pai, o bicho tá morto!” – meu pai lá em cima vendo tv.
” – Como vc sabe?”
” – Joguei água e ele não se mexeu. Água gelada. O bicho tá morto”

Depois de muito me xingar de cruel e pá, que eu sou maldosa por fazer isso com um bichinho e tal, e de muito eu justificar (“porra, pai, o bicho tá MORTO!”), ele aceitou o fato. E eu já tava preocupada com a decomposição, não é legal ter um pássaro na janela do quarto se decompondo em época de gripe aviária.

Fomos dormir, mas eu sentia a presença do cadáver.

No outro dia de manhã, fui tirar fotos. Tirei uma porrada de fotos do bicho. Aí, depois de ver as fotos, Pablo veio perguntar se o bicho tinha cabeça. Porra. Matias veio me dizer que, nas fotos, parecia uma cobra. Ou seja: fotos fdp, mal tiradas do caralho.

Eu tinha que tirar mais fotos que mostrassem ao menos a cabeça do bicho. Uma coisa era quase fato: o bicho tava morto, não se mexia desde o dia anterior. Aí fui tirar as porras das outras fotos.

Tirei uma, ficou uma merda. Fui tirar a outra mais de perto. Quase morri.

Assim que apertei o botão, a filha da puta da pássara voou, me dando um susto do CARALHO, e fazendo com que eu quase jogasse a máquina pela janela. E, embaixo dela, dois ovinhos! 🙂

Moral da história: a teoria do meu pai tava certa. Pássaras chocando ou botando ovos agüentam até água gelada na cabeça, nem se mexem. Portanto, há que esperar a decomposição começar para se ter certeza que um bicho tá morto.

Palavra de quem viveu.

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